A QUESTÃO SOCIOEMOCIONAL É UM PROBLEMA DE TODOS

A escuta como migração para o outro e a escola como última barreira contra a barbárie

A 6ª edição do Congresso Socioemocional LIV trouxe para o debate a questão social de cada um de nós quando o assunto é a criança. Portanto, até que ponto as redes sociais pertencem ao campo do privado — e não do público?

“Desaprender o individualismo e reaprender o encontro” – essa foi uma das falas que marcaram a abertura da 6ª edição do Congresso Socioemocional LIV, pronunciada pela atriz e cantora Zezé Motta, no Rio de Janeiro, no dia 21 de maio.

A fala de Zezé ecoa a principal preocupação discutida ao longo do evento: a maneira sutil como a invisibilidade e a negligência em relação ao uso da tecnologia impacta as reações das crianças diante de diferentes situações – especialmente quando envolve violência, seja no ambiente escolar ou familiar. Nesse contexto, muitos adolescentes deixam de ocupar apenas o papel de vítimas e passam a ser vistos como agressores na sociedade.

Crédito: Divulgação Congresso Socioemocional LIV

O LIV, Laboratório Inteligência de Vida, é um programa brasileiro voltado para a educação socioemocional de crianças e adolescentes. O projeto adota uma abordagem que complementa o ensino tradicional, com foco no desenvolvimento de habilidades como empatia, autoconhecimento, autocontrole, responsabilidade e colaboração.

O congresso realizado pelo projeto na capital carioca reuniu 1.600 pessoas, a maioria educadores de escolas com linhas de pensamento diferentes – algumas mais progressistas, outras mais conservadoras; escolas religiosas e escolas laicas. Apesar das diferenças, todos compartilhavam um objetivo comum: discutir como lidar com o sofrimento das crianças e dos adolescentes diante da crescente hipermedicalização e do excesso de diagnósticos que temos observado atualmente, incluindo casos de automutilação e suicídio.

Um dos pontos de destaque do evento foi a participação de especialistas convidados. Com o objetivo de abordar o tema de forma ampla e profunda, o congresso contou com a presença de diversos profissionais, como o pediatra Daniel Becker, a juíza Vanessa Cavalieri e os escritores Jeferson Tenório e Mia Couto.

Uma constante em diversas intervenções foi o debate sobre a questão social de cada um de nós quando o assunto é a criança. Ou seja, até que ponto a discussão sobre as redes sociais pertence ao campo do privado – e não do público?

Segundo a juíza da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, Vanessa Cavalieri, nos últimos anos – como exemplificado na série   –, meninos de várias idades têm se envolvido em atos de extrema crueldade, marcados, em sua maioria, por misoginia e ideologias de supremacia, muitas vezes fomentadas por meio de aplicativos como Discord e WhatsApp.

O pediatra e ativista pela infância, Daniel Becker, também esteve presente ao evento e reforçou que muitos dos diagnósticos de distúrbios e doenças crônicas são consequências do exagerado uso de telas pelas crianças. Além disso, o médico destacou como a tecnologia gera um sofrimento feminino, afetando especialmente as meninas mais novas, que entram em contato de forma ainda imatura com essa presença da figura da “influencer”, o que gera uma comparação e consequentemente um bullying mais sútil.

Ao criticar a desigualdade social, o pediatra também chama atenção para a desumanização da infância e a redução do espaço e do tempo para o brincar, mesmo em contextos fundamentais para o desenvolvimento.

Crédito: Divulgação Congresso Socioemocional LIV

“Como se ensina a democracia?”

Jeferson Tenório, autor de Avesso da Pele, aprofundou o debate político sobre as redes sociais ao responder uma pergunta provocativa, do mediador da mesa, Joaquim Falcão: “Como se ensina a democracia?”

Ao iniciar sua resposta, o escritor destacou que, embora a democracia seja o melhor sistema político, ela ainda permite a opressão de determinados grupos. No entanto, por meio da arte e da literatura, surge a possibilidade de sonhar. Ainda assim, Jeferson ressaltou que esse sonho é constantemente modificado quando se considera o recorte de classe e raça. Diante disso, ele propõe uma reflexão: “Quem é esse adolescente de que estamos falando?”

A partir da perspectiva de um professor, Tenório explicou qual deve ser o papel do educador diante desse jovem e como resistir a governos de extrema direita, que frequentemente ignoram os recortes sociais necessários para compreender e acolher cada grupo:

“No fim das contas, quem tem que resolver é o professor que ensina na sala de aula. E muitas vezes esse educador não tem uma formação, ou às vezes nem tem tempo para ter uma formação, para ter justamente essa escuta mais apurada e mais técnica. Eu acho que quando o professor consegue identificar, o que ele tem que procurar é se qualificar enquanto profissional. Eu fiz isso quando comecei a receber alunos com TDAH, alunos que tinham laudos. Eu fui atrás para tentar dar conta do que eu tinha em sala de aula. E a mesma coisa acontece com o recorte racial. Você precisa ler autores negros. O que a Lélia Gonzalez está falando, o que o Franz Fanon está falando, para aí sim você conseguir ir com uma escuta mais profissional, afetiva.”

Mia Couto, que também estava presente no evento ao lado de Tenório, complementou a fala do companheiro ao ressaltar a importância do papel do professor em sala de aula, que, segundo ele, deve assumir a função de contador de histórias, pois é por meio da brincadeira que se aprende. O autor do livro Terra Sonâmbula concluiu dizendo que a escuta é uma forma de migração para o outro e defendeu esse processo de abertura e atenção ao outro.

“Imagina, se eu começo a dar um algoritmo ou uma equação do segundo grau de matemática, eu acho que é uma obrigação explicar aos alunos que esse método surgiu não porque alguém estava sentado em casa e inventou uma fórmula matemática, isso foi feito apenas para resolver o assunto. Eu acho que é uma questão de respeito pela história das próprias coisas, das próprias matérias. Sei lá, dizer que, por exemplo, Newton foi um mau aluno. Newton tinha problemas de relacionamento social. Ele não era um gênio, como a gente pensa. Portanto, esta ideia de que pessoas que tinham problemas de relacionamentos, tinham problemas de fragilidade escolar conseguiram grandes conquistas científicas, é importante contar as histórias destas pessoas”, defendeu Couto.

Por fim, Tenório defende que a escola é a última barreira antes da barbárie. Um espaço de resistência que deve ser fortalecido. Para ele, pensar é algo que se ensina.

Afinal, quem de nós pode se isentar da responsabilidade diante da questão socioemocional infantil?

Maíra Oliveira Graça é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil. 

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